Somos humanos.
Somos seres como vocês, só que ainda não conseguimos um corpo de carne para nossa manifestação na matéria.
Mergulhamos na matéria, todos nós que aqui estamos reunidos; nosso mergulho foi interrompido contra nossa vontade e desconsiderando toda uma programação que já foi realizada há muito tempo antes do mergulho acontecer.
Fomos desprezados como o lixo que se joga fora quando algo não tem mais serventia. Alguns de nós até nasceram e logo em seguida, foram jogados fora.
Vocês não podem imaginar a nossa dor, porque como se não bastassem os cortes na nossa carne, ainda tenra, ou em formação; o esmigalhar de nossos ossos na sucção criminosa; o calor exagerado do sal que queima nossa pele ou o veneno que interrompe nossa respiração sufocando-nos na barriga materna; ainda nos ferem as almas devedoras, os profundos sentimentos de ódio, nojo, desprezo, rejeição e tantas outras vibrações que partem de nossas mães, cruzam o espaço intrauterino e nos açoitam violentamente.
São marcas que levaremos por muito tempo gravadas na delicada tessitura espiritual de nossos corpos.
Sabemos que nada mais fazemos do que colher o que plantamos no passado, mas vocês ainda estão em pior situação e só começam a plantar as dores que um dia, como nós, colherão com auxílio das frias mãos que sem piedade interrompem vidas humanas.
Amadeus
Um abortado
GESJ - 19/06/2012 - Vitória, ES - Brasil